Devocional #22 - Aquele que se divorciar

“Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio’. Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério” – Mateus 5:31,32

Diante da indagação feita pelos fariseus acerca do divórcio alguns capítulos depois, em Mateus 19.1-11, Jesus nos apresenta a perspectiva pela qual devemos olhar para a questão. Em primeiro lugar é importante lembrarmos que, assim como declaramos no primeiro devocional desta série, o Sermão do Monte não é um conjunto de regras ideias num mundo perfeito, mas uma bússola que aponta para a direção correta, sendo assim não existe, em nosso mundo quebrado, soluções fáceis e indolores.

Mais do que imaginamos, o entendimento moderno acerca do divórcio bebe na mesma fonte em que os fariseus dos tempos de Jesus bebiam. Em Mateus 19, após ser indagado por alguns deles acerca do tema, o Mestre desenvolve um pouco mais sua perspectiva sobre o divórcio.

Mateus nos escreve: “Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: ‘É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?’” (Mateus 19.3). A expressão, “por qualquer motivo”, utilizada pelo evangelista não apenas filtra o ensino de Cristo, mas também nos revela o contexto sociocultural por trás da questão.

Tal como em nossos dias, os fariseus questionam o Mestre sobre a possibilidade de romperem os votos matrimoniais tomando como motivação qualquer coisa. A interpretação da Lei concedia,  ao homem, a possibilidade de rompimento do casamento pelos motivos mais banais possíveis.

Um homem poderia se divorciar de sua esposa simplesmente argumentando que “aos seus olhos ela não tinha mais graça”, ou que seu comportamento era “indecente”, o grande problema é que, como nos escreve D. A. Carson (1984), a indecência, embora pudesse se referir à imoralidade, não se limitava à ela, e na mesma medida não era tão grave quanto o adultério, uma vez que a Lei prescrevia a pena de morte para este pecado e não o divórcio.

“No judaísmo palestino predominante, a opinião era dividida aproximadamente em dois campos opostos: tanto a escola de Hillel quanto a escola de Shammai permitiam o divórcio com base em ‘algo indecente’, mas eles discordaram sobre o que ‘indecente’ poderia incluir. Shammai e seus seguidores interpretaram a expressão como se referindo à indecência grosseira, embora não necessariamente ao adultério; Hillel estendeu o significado além do pecado para todos os tipos de ofensas reais ou imaginárias, incluindo uma refeição preparada de maneira inadequada.” (CARSON, 1984)

Diante da solução “fácil” apresentada pelos fariseus como resposta aos atritos comuns do casamento, Jesus declara que Deus nunca planejou o rompimento dos laços assumidos no matrimônio. O propósito dEle sempre foi que o homem e a mulher se tornassem uma só carne e não apenas duas pessoas ligadas por meio de um compromisso civil que pudesse ser rompido diante de qualquer indisposição ou adversidade da vida.

Entretanto, “Se Moisés permitiu”, escreve Carson, “ele o fez porque o pecado pode ser tão vil que o divórcio é preferível à contínua "indecência". Isso não quer dizer que a pessoa que, de acordo com o que Moisés disse, se divorciou de sua esposa, estava realmente cometendo pecado ao fazê-lo; mas esse divórcio poderia até ser considerado como testemunho de que já havia pecado no casamento”.

Neste sentido a perspectiva apresentada por Carson nos revela um aspecto importante, mas muitas vezes não colocado em questão ao se tratar do tema: o divórcio não é a causa, mas a consequência do pecado não tratado no matrimônio.

Carson ainda nos escreve “[...] qualquer visão de divórcio e novo casamento [...] que vê o problema apenas em termos do que pode ou não ser feito já negligenciou um fato básico - o divórcio nunca deve ser pensado como um divórcio ordenado por Deus, uma opção moralmente neutra, mas como evidência de pecado, de dureza de coração”.

Cristo condena o rompimento da aliança por motivos fúteis, tal como muitos fariseus sustentavam, e como o mundo hoje prega. E tal disposição do coração humano revela a dureza e o pecado contido nele, o divórcio pode não ser, necessariamente, o pecado, mas o resultado dele, o fruto da infidelidade presente no coração humano e sua indisposição de trata-lo à luz do Evangelho de Jesus Cristo.

O Mestre, contudo, nos apresenta uma exceção: o divórcio era aceitável em caso de infidelidade. Ferguson (2019) declara que “A palavra que Mateus usa é porneia. Na época que o Evangelho de Mateus foi escrito, a palavra em questão continha um significado bastante amplo para descrever a imoralidade sexual e infidelidade”.

Jesus não ensina acerca do divórcio antes de tratar do adultério por uma questão básica: a infidelidade nasce no profundo do coração humano, é cultivada no oculto antes de se manifestar em ações.

Pressupõe-se que os cônjuges, ao assumirem os votos, se tornem uma só carne. A fidelidade exige que nenhuma área do coração permaneça oculta diante dos olhos do outro, tudo deve estar nu e exposto.

Alimentar o desejo de cobiça por outra mulher, como Cristo condena anteriormente, é violar a aliança e, por consequência, abrir um precedente para o rompimento dela, da mesma forma manter alguma área do coração oculta aos olhos do outro é atravessar para o campo da infidelidade rompendo, ainda que internamente, a aliança assumida no altar.

Tanto o adultério fruto da cobiça do coração, quanto os segredos no matrimônio revelam a dureza e o pecado contido no coração que é a raiz de toda infidelidade.

Não existe solução fácil, o divórcio, mesmo na exceção apresentada por Jesus, não é menos traumatizante do que a amputação de um membro doente, os efeitos nocivos são tratados, mas sempre haverá perdas.

Diante do ensino apresentado pelo Mestre os discípulos se assustam e questionam se, nestes termos, não seria melhor abraçar o celibato. De fato, o objetivo de Cristo é, em primeiro lugar, apresentar a seriedade da aliança matrimonial para que, ao assumi-la, seus discípulos estejam plenamente cientes do compromisso que abraçaram.

O casamento não é apenas uma formalidade civil, uma construção social, mas um pacto de vida, assumi-lo requer, de ambas as partes, total disposição para mortificar a própria vontade com o auxílio da graça de Deus.

Como Ferguson (2019) nos escreve, “Quem poderá ler esse ensinamento sem estremecer? Que Deus nos ajude a sermos fiéis — ao nosso cônjuge (se já somos casados), ao nosso possível cônjuge (se nos casarmos no futuro) — ou simplesmente ao próprio Deus (se permanecermos solteiros)”.

Antes de encerrarmos, gostaria de apontar duas considerações e, daqui em diante, deixo claro que, embora creia que exista embasamento bíblico, elas representam minha perspectiva pessoal.

Em primeiro lugar me dirijo às mulheres que acompanham o projeto, o que Cristo nos ensina em ambos os textos, Mateus 5 e 19, não diz respeito à uma submissão que coloque a integridade física e emocional da mulher em risco.

Jesus em momento algum pressupõe a ideia de que a mulher deva se submeter à um relacionamento marcado por violência, mesmo porque sua resposta é direcionada a homens que tomavam a Lei de Deus para apoiarem sua infidelidade, a disposição para o divórcio nos tempos de Cristo não era da mulher, mas do homem.

Sendo assim, diante de casos de violência física, psicológica e/ou sexual, busque ajuda com pessoas que possam lhe dar suporte e a segurança necessárias e denuncie. O Apóstolo Paulo declara em Romanos 13 que as autoridades são a espada de Deus para punir aquele que pratica o mal. A oração pelo cônjuge não substitui a punição civil, se há crime sendo cometido ele deve ser respondido na esfera criminal. Jamais deixe de orar, mas não impeça que Deus puna o pecado.

Em segundo lugar me dirijo aos homens, Paulo não compara o casamento com o relacionamento de Cristo e a Igreja em vão. Há um motivo muito sério nesta analogia.

Embora leiamos no Apocalipse Cristo retornando com poder e força, como um Rei pronto para a guerra e que pisa Seus inimigos, Ele não usa de sua violência contra a Igreja, pelo contrário, sua espada é voltada contra os inimigos dela.

Para sua noiva Jesus, mesmo diante dos erros dela, se dirige com cuidado chamando-a graciosamente ao arrependimento através das sete cartas, mas para os inimigos dela ele desembainha a espada.

Cristo não agride sua noiva, não a violenta, mas se sacrifica por ela, Ele a protege e a guarda. Se teu referencial não é Jesus e se tu precisas levantar a mão contra sua esposa e se dirigir a ela com violência, então lamento lhe informar, mas você não precisa se preocupar em proteger sua casa contra o homem mau, pois toda noite ele entra nela e se deita ao lado de sua esposa.

Que Deus lhe abençoe.


Bibliografia citada:

CARSON, D. A. Matthew. In: CARSON, D. A.; WESSEL, W. W.; LIEFELD, W. L. The Expositor’s Bible Commentary: Matthew, Mark, Luke. Michigan: Zondervan, v. 8, 1984.

FERGUSON, S. O Sermão do Monte. Tradução de E Pires. São Paulo: Editora Trinitas, 2019.


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